Caso Eloá Cristina Pimentel
Eloá Cristina Pimentel - Janela do apartamento Santo André, no ABC paulista

Em 17 de outubro de 2008, após ser mantida por quase cinco dias em cárcere privado, a jovem Eloá, de 15 anos, foi morta pelo ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes.

A HISTÓRIA

Em 13 de outubro de 2008, por volta das 13h, Lindemberg Alves Fernandes, de 22 anos, inconformado com o fim do relacionamento, invadiu o apartamento da ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, onde a jovem estudava na companhia de três amigos – Nayara Rodrigues da Silva, Iago Vilera e Victor Campos. Após fazer ameaças, o sequestrador libertou os dois rapazes naquela mesma noite. No dia seguinte, Nayara chegou a deixar o local, mas, numa atitude inesperada, retornou ao cativeiro para ajudar nas negociações.

Durante cerca de 100 horas, o país acompanhou o drama das duas jovens que terminou de maneira trágica. O sequestro se arrastou até o início da noite de 17 de outubro, quando a polícia invadiu o apartamento. Acuado, Lindemberg disparou contra as meninas. Eloá morreu com um tiro na cabeça e outro na virilha. Nayara foi atingida no rosto, mas sobreviveu. O crime aconteceu em Santo André, no ABC paulista. 




A ação da Polícia de São Paulo foi questionada. Enquanto o comandante da operação afirmava que invadira o local apenas após ouvir o primeiro disparo do sequestrador, imagens mostravam que Lindemberg só havia atirado depois da entrada dos policiais.

Em 16 de fevereiro de 2012, Lindemberg Alves foi condenado a 98 anos e dez meses de prisão pelos 12 crimes pelos quais foi julgado.

Lindemberg Alves Fernandes, de 22 anos
Nayara Rodrigues da Silva
Iago Vilera de Oliveira
Eloá Cristina Pimentel


EQUIPE E ESTRUTURA

O caso da jovem Eloá mobilizou a equipe de jornalismo de São Paulo, que acompanhou de perto as negociações da polícia e as investigações que apuraram a responsabilidade sobre a morte da adolescente. 

O crime foi destaque nos principais telejornais das emissoras, com entradas ao vivo de repórteres direto do local. Flashes sobre o sequestro e as negociações entre a polícia e Lindemberg Alves Fernandes também foram exibidos ao longo da programação e no Globo Notícia.

A decisão da família de doar os órgãos de Eloá Cristina Pimentel, após a confirmação da morte da adolescente, suscitou diversas reportagens sobre transplantes no Brasil. O velório, que atraiu cerca de 36 mil pessoas de diferentes lugares do país, e o enterro da jovem também foram destaque no noticiário.

“A cobertura do caso Eloá foi feita com muito cuidado, sem o sensacionalismo. Não houve tiro lá dentro e o Jornal Nacional foi ouvir especialistas nisso, peritos, que atestaram que não houve tiro nenhum. Houve uma operação mal sucedida da polícia”, explica William Bonner, editor-chefe e apresentador do JN.   

AS PRIMEIRAS INFORMAÇÕES

O sequestro começou no início da tarde do dia 13 de outubro, mas apenas à noite a polícia foi informada sobre o crime. Na manhã do dia seguinte, quando o Bom Dia Brasil foi ao ar, o GATE – Grupamento de Ações Táticas Especiais da PM de São Paulo – já tentava negociar com Lindemberg Alves. A repórter Graciela Andrade falou, ao vivo, direto do conjunto habitacional onde as adolescentes eram mantidas reféns havia 18 horas. 

A partir de então, os principais telejornais da emissora acompanharam de perto o sequestro de Santo André, com reportagens sobre o andamento das negociações e o perfil dos jovens envolvidos na situação, além de entradas ao vivo ao longo da programação atualizando as informações. Durante quatro dias, repórteres se revezaram em plantões no local.

Na manhã de 15 de outubro, a pedido da polícia e por questões de segurança, a impressa teve que se afastar. Os policiais evitavam passar informações para não atrapalhar as negociações, e os parentes de Eloá e de Lindemberg também foram orientados a não dar entrevistas. A equipe da TV Globo se instalou então em um apartamento de um prédio vizinho, de onde era possível registrar toda a movimentação.

O cerco montado pela polícia, no entanto, não impediu que jornalistas tivessem acesso a Lindemberg. Numa conversa por telefone com a repórter Zelda Mello, exibida pelo Jornal Nacional naquela noite, o sequestrador disse que libertaria a ex-namorada, mas não informou quando isso aconteceria. Após 55 horas, a polícia e o criminoso ainda não haviam chegado a um acordo. O rapaz permanecia irredutível, mesmo diante dos apelos de sua mãe. 

O RETORNO DA REFÉM

Um dos momentos mais criticados da operação realizada pela Polícia Militar de São Paulo foi o retorno de Nayara Rodrigues da Silva ao cativeiro. A adolescente havia sido libertada na noite de 14 de outubro, depois que a polícia cortou a energia do apartamento onde as duas jovens eram mantidas em cárcere privado. Mas, a pedido de Lindemberg, Nayara voltou ao local na manhã do dia 16, para ajudar na negociação, e acabou tornado-se refém mais uma vez. Segundo a polícia, fazia parte da estratégia de negociação, mas o sequestrador descumpriu parte do acordo.




As imagens de Nayara entrando no apartamento onde Eloá permanecia sob a mira do revólver do ex-namorado foram mostradas ao vivo no programa Mais Você. A princípio, acreditava-se tratar de alguém da equipe da polícia, como a repórter Glória Vanique explicou à apresentadora Ana Maria Braga.  


“ERA PRECISO INVADIR?”

Após 100 horas, um desfecho trágico. No final da tarde de sexta-feira, 17 de outubro, um plantão da TV Globo anunciou o término do sequestro das duas adolescentes. O repórter César Galvão informou que a polícia, após ouvir um tiro no interior do apartamento, explodiu a porta e entrou no local. Eloá e Nayara, atingidas pelos disparos de Lindemberg, foram levadas para o hospital.

Por telefone, a repórter Karina Pachiega, que estava no hospital, deu as últimas informações. Nayara fora atingida no rosto e não corria risco de morte. Já o estado de Eloá, que levara um tiro na cabeça e outro na virilha, era grave. O sequestrador saiu ileso após a invasão da polícia.

Antes de o Jornal Nacional entrar no ar, a assessoria de imprensa do Palácio dos Bandeirantes confirmou a morte de Eloá Cristina. Mais uma vez um plantão interrompeu a programação para dar a notícia. Pouco depois, no entanto, a informação foi desmentida. A adolescente tivera uma parada cardíaca, mas fora reanimada e seguia em coma induzido. Numa nota lida por Fátima Bernardes no JN daquela noite, a assessoria do Governo de São Paulo pedia desculpas pelo o ocorrido. A morte cerebral de Eloá foi confirmada na madrugada de domingo. 

Naquela noite, o Jornal Nacional teve grande parte de seu noticiário dedicado ao fim do sequestro em Santo André. De diferentes pontos, repórteres deram as últimas informações: Cesár Galvão e Renato Biazzi estavam no conjunto habitacional onde aconteceu o crime; Zelda Mello, na delegacia para onde foi levado Lindemberg; Patrícia Taufer, no hospital que recebeu as adolescentes baleadas; e Mariana Ferrão, no Globocop, sobrevoando a região. Fábio Turci conversou com psiquiatras e psicólogos numa tentativa de traçar um perfil psicológico do sequestrador.

“Era preciso invadir?” Com uma edição especial, o Jornal da Globo questionou a ação da polícia. O repórter Alan Severiano conversou com especialistas que apontaram erros na operação policial. “Optamos por fazer uma cobertura discreta no momento do sequestro. Mas, quando teve o desfecho, fizemos uma grande edição que tinha exatamente todas as dimensões daquela tragédia”, comenta Erick Brêtas, na época editor-chefe do telejornal. O Jornal da Globo daquela noite recebeu o Prêmio Rede Globo de Jornalismo de melhor edição de telejornais. 

DESMONTANDO A TESE DA POLÍCIA

Saber se havia tido ou não um tiro antes da invasão da polícia no apartamento onde Eloá e Nayara eram mantidas reféns era um ponto crucial da investigação. Segundo o comandante da operação, Eduardo Félix de Oliveira, o local foi invadido somente após terem sido ouvidos disparos no interior. Mas não foi isso que a reportagem de César Tralli, exibida no Jornal Nacional em 18 de outubro, mostrou. A pedido do JN, o perito particular Ricardo Molina avaliou uma gravação que começava um minuto e dez segundos antes da explosão da porta do apartamento. Ele identificou tiros apenas após essa explosão que antecedeu a invasão policial, e não antes, como afirmava a Polícia Militar.

Entrevistado por Tralli, Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro), também avaliou a ação da polícia e apontou possíveis falhas da operação. Segundo ele, os 15 segundos entre a explosão da porta e a entrada efetiva da polícia no apartamento foram cruciais, pois permitiu que o sequestrador disparasse contra as adolescentes.

César Tralli lembra que parte da imprensa concorrente acreditou na versão da polícia, que afirmava só ter invadido o local após ouvir um disparo. “Nós ficamos receosos em relação a isso, desconfiados do que realmente havia acontecido ali. A partir de então, entrei de cabeça no assunto”, explica o repórter. 

Em 21 de outubro, dia do enterro de Eloá, o Jornal Nacional pediu que Ricardo Molina analisasse outra gravação, desta vez com 12 minutos de duração antes da explosão da porta. “Pegamos as fitas brutas, com as gravações de câmeras de link que estavam posicionadas perto do local. Essas câmeras estavam ligadas, e o sinal estava vindo para a redação o tempo todo, pois haveria uma coletiva poucos minutos antes de a polícia invadir o apartamento”, explica César Tralli.

Novamente, Ricardo Molina não identificou nenhum som que pudesse ser associado a um disparo de arma antes da explosão da porta do apartamento. A reportagem de César Tralli mostrou uma linha de tempo com base na gravação bruta, na qual o perito comprovava que todos os tiros eram sequenciais à invasão do apartamento. “Quer dizer, quando invadiram o apartamento, o rapaz teve tempo de matar a Eloá, de atirar na outra garota e, ainda, de atirar contra os policiais. Então, nós recontamos o caso, demolindo a tese da polícia”, conclui Tralli.

Os policiais estavam proibidos de darem qualquer declaração pública. Mas a TV Globo teve acesso ao depoimento dos agentes que participaram da ação. De cinco policiais, quatro afirmaram terem ouvido um disparo antes da invasão, mas nenhum foi preciso sobre o momento exato.

No Jornal da Globo daquela noite, Arnaldo Jabor fez um resumo do caso e, com um projétil na mão, criticou a operação policial: “Agora lançam a dúvida: o tiro foi antes ou depois da invasão? Nas gravações existentes, não se ouve tiro antes. Mas os policiais não podem falar. Esta bala não foi deflagrada só pelo assassino. O que disparou essa bala foi também o gatilho da falta de dinheiro, da falta de treinamento, de equipamento, e da falta de inteligência. Esta bala selou o último ato de mais uma evitável tragédia brasileira.”.

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM NAYARA

Depois de muito negociar, Renata Ceribelli convenceu Nayara Rodrigues da Silva a dar uma entrevista exclusiva ao Fantástico, exibida em 2 de novembro de 2008. “Ela não queria falar de jeito nenhum. Passei duas semanas em São Paulo, indo à casa dela sem câmera, conversando, explicando a importância daquela entrevista. E no fim eu consegui. Nayara deu um depoimento importantíssimo, no qual deixava claro que, quando a polícia entrou, Lindemberg ainda não tinha atirado”, conta a jornalista.

Além de comentar o desfecho do caso, Nayara falou sobre um dos momentos mais criticados da operação policial – seu retorno ao cativeiro após ter sido libertada pelo sequestrador. Segundo a jovem, ela fora pressionada pela polícia a voltar ao apartamento e, em momento algum, recebera orientações de como deveria reagir diante de Lindemberg. 

UM ANO DEPOIS

Em 18 de outubro de 2009, o Fantástico exibiu imagens inéditas da negociação com Lindemberg Alves Fernandes, registradas pelos próprios policiais. A reportagem de Valmir Salaro mostrou ainda que a Polícia Militar de São Paulo continuava afirmando que houve sim um disparo antes da invasão do apartamento, apesar do depoimento de Nayara, a principal testemunha do caso, contradizer essa versão. Segundo a PM, a ação foi legítima e sem falhas. Lindemberg foi apontado pelo Ministério Público como o único responsável pela morte de Eloá Cristina Pimentel. 

JULGAMENTO DE LINDEMBERG

Em 13 de fevereiro de 2012, teve início o julgamento de Lindemberg Alves Fernandes, que foi a júri popular três anos e quatro meses após matar a adolescente Eloá Cristina Pimentel. O jornalismo da TV Globo deu ampla cobertura ao caso durante os quatro dias de depoimentos e debates entre a acusação e a defesa.  Por determinação da justiça, o julgamento não podia ser gravado ou filmado, mas os repórteres puderam assistir aos interrogatórios. Além disso, equipes de reportagem acompanharam a movimentação do lado de fora do Fórum de Santo André, fazendo entradas ao vivo ao longo da programação e nos principais telejornais da emissora.

“São Paulo pôs um time de primeira grandeza cobrindo o julgamento. Nós planejamos algumas reportagens que facilitariam a compreensão do púbico para o que estava acontecendo. Acho que não nos escapou nada, nenhum detalhe, tanto do perfil psicológico do agressor, o que ele fazia, como da sucessão de fatos que acabou culminando com a morte de Eloá e com os ferimentos de Nayara. Eu acho que o JN fez um trabalho jornalístico digno, sem maniqueísmo. Isso é muito difícil, é preciso dizer que em jornalismo quando se ouve o clamor popular em algo que tem grande apelo, que provoca imensa comoção, nós jornalistas temos a obrigação de nos vacinarmos contra tendências ao populismo a agradar uma maioria. A maioria tem o direito à opinião dela, mas nós temos o dever de levar a informação ao público da maneira mais neutra, isenta possível. Eu acho que fizemos um trabalho bem digno desse julgamento”, analisa William Bonner.

Um dos momentos mais aguardados era o interrogatório de Lindemberg, que falaria pela primeira vez desde que fora preso, em outubro de 2008. A estratégia da defesa era classificar o crime como passional, levando-se em consideração que o réu era primário, sem antecedentes e trabalhador. Já acusação defendia a tese de que Lindemberg era um homem frio, calculista, que premeditou tudo.

Às 19h47 de 16 de fevereiro, um plantão da Rede Globo interrompeu a programação para noticiar o fim do julgamento de Lindemberg Alves. Em frente ao Fórum, o repórter Rodrigo Alvarez informou, ao vivo, que a juíza Milena Dias anunciara a sentença do réu – 98 anos e dez meses de prisão. O jovem foi condenado por todos os 12 crimes pelos quais fora julgado. O Jornal Nacional daquela noite mostrou, com exclusividade, a gravação de trechos do depoimento de Lindemberg no dia anterior.

LADO SOBRENATURAL

No meio de tanta informação despejada para o público brasileiro sobre o sequestro e morte da jovem Eloá Pimentel, pequenos fragmentos daquela semana que marcou a nossa história insistem em nos assombrar com questionamentos sobre os quais jamais teremos respostas.

As imagens captadas pelas lentes de uma câmera da Rede Record, registraram muito mais do que o momento onde a polícia explode a porta do apartamento que serviu de cativeiro para Eloá e sua amiga Nayara. Nota-se a presença de um elemento novo naquela cena. Trata-se de um vulto branco que surge ao lado de uma parede segundos antes dos policiais estourarem a bomba que por sua vez foi acionada assim que Lindemberg, o seqüestrador, fez um disparo dentro da residência. O vulto se inclina para frente na horizontal e dispara numa velocidade formidável em direção ao poste que fica na saída do prédio e se dissolve.

Veja o vídeo:


"Tem um anjinho e um diabinho aqui. O diabinho está falando para eu fazer vai em frente, não para." O anjo tá falando: "Num" faz isso, tô todo confuso, tô nervoso."

Lindemberg alves fernandes 22 anos - Sequestrador de Eloá

Compartilhe:

Michel Belli

Poste um Comentário: