Segunda parte da história completa sobre o deus grego Zeus.

Zeus

Filhos com Temis: Horas – Moiras 

Filhos com Medusa: Crisaor – Pégaso 
Filhos com Eurínome: Cárites 
Filhos com Demeter: Core (a figura jovem da deusa) / Perséfone (a figura madura, rainha do hades); Filhos com Leto: Apolo – Artemis Filhos com Hera: Hebe, Ares, Ilítia – Hefesto 
Filhos com Maia: Hermes 
Filhos com Sêmele: Dioníso 
Filhos com Alcmena: Heracles 
Filhos com Dânae: Perseu 
Filhos com Europa: Minos – Sarpédon – Radamanto 
Filhos com Io: Épafo
Filhos com Leda: Helena – Castor – Polux – Clitemnestra 

Obs.: (Lista conta apenas com os princípais e mais importantes filhos de Zeus para o mito) 

Se não leu ainda a primeira parte clique em Zeus - Deus Grego (História)


Etimologia 

Em grego (Zeús), divindade suprema da maioria dos povos indo-europeus. 

Seu nome significa o que ele sempre foi antes de tudo: “o deus luminoso do céu”. 

A flexão (Dzeús), (Diós) pressupõe dois radicais: dy-eu, dy-êu, fonte de “e” (Dzeús) e do ac. (Dzên), que se origina de dye(u)m a que corresponde o sânscrito dyauh; o segundo radical é “deiw>deiuos>”dei(u)os> deus e com alternância diw-, como se vê no gen. (pater) gerou Iuppiter, “pai do céu luminoso”, que possui o mesmo significado que Dyãus pitar. No a.a. alemão Tiu>Ziu se tornou o deus da guerra, aparecendo o mesmo nome igualmente em inglês, sob a forma Tuesday, ” dia de Zeus”. em francês, “o dia de Júpiter” surgiu primeiramente com a forma juesdi, depois jeudi, que é o latim iouis dies, “dia de Júpiter”. 

Aliás, os inúmeros epítetos gregos de Zeus atestam ser ele um deus tipicamente da atmosfera: ómbrios, hyétios (chuvoso); úrios (o que envia ventos favoráveis); astrápios ou astrapaîos (o que lança raios); brontaîos (o que troveja). Nesse sentido, diz Teócrito que Zeus ora está sereno, ora desce sob a forma de chuva. 

Num só verso Homero sintetiza o caráter celeste do grande deus indo-europeu; Zeus obteve por sorte o vasto céu, com sua claridade e suas nuvens.

Zeus - Deus Grego  (História Parte 2)

Antes de penetrarmos no mito de Zeus e sua conquista definitiva do Olimpo, voltemos brevemente a Crono, para que se possa colocar uma certa ordem didática no assunto. Depois que se tornou senhor do mundo, Crono converteu-se num tirano pior que seu pai Urano. Não se contentou em lançar no Tártaro a seus irmãos, os Ciclopes e os Hecatonquiros, porque os temia, mas, após a admoestação de Urano e Geia de que seria destronado por um de seus filhos, passou a engoli-los, tão logo nasciam. 

Escapou tão somente o caçula, Zeus: grávida desde último, Réia refugiou-se na ilha de Creta, no monte Dicta dou Ida, segundo outros, e lá, secretamente, deu à luz o futuro pai dos deuses e dos homens, que foi, logo depois escondido por Geia nas profundezas de um antro inacessível, nos flancos dos monte Egéon. Em seguida, envolvendo em panos de linho uma pedra, ofereceu-a ao marido e este, de imediato, a engoliu. 

No antro do monte Egéon, Zeus foi entregue aos cuidados dos Curetes e das Ninfas. Sua ama de leite foi “a ninfa”, ou, mais canonicamente, “a cabra” Amaltéia. 

Quando, mais tarde, a cabra morreu, o jovem deus a colocou no número de constelações. De sua pele, que era invulnerável, Zeus fez a égide, cujos efeitos extraordinários experimentou na luta contra os Titãs. 

Atingida a idade adulta, o futuro senhor do Olímpo iniciou uma longa e terrível refrega contra seu pai. Tendo-se aconselhado com Métis, a Prudência, esta lhe deu uma droga maravilhosa graças à qual Crono foi obrigado a vomitar os filhos que havia engolido. Apoiando-se nos irmãos e irmãs, devolvidos à luz pelo astudo Crono. 

Zeus, para se apossar do governo do mundo, iniciou um duro combate contra o pai e seus tios, os Titãs.. . 

Caverna onde Zeus nasceu

Caverna onde Zeus nasceu 

Zeus veio ao mundo na matrilinear ilha de Creta e, de imediato, foi levado por Geia para um antro profundo e inacessível. Trata-se, claro está, em primeiro lugar, de uma encenação mítico-ritual cretense, centrada no menino divino, que se torna filho e amante de uma Grande Deusa. Depois, seu esconderijo temporário numa gruta e o culto minóico de Zeús Idaios, celebrado numa caverna do monte Ida, têm características muito nítidas de uma iniciação nos Mistérios. Não é um vão, além do mais, que se localizou, mais tarde, o túmulo do pai dos deuses e dos h omens na ilha de Creta, fato que mostra a assimilação iniciática de Zeus aos deuses dos Mistérios, que morrem e ressuscitam. 

Conta-se ainda que o entrechocar das armas de bronze dos Curetes abafava o choro do recém-nascido, o que traduz uma projeção mítica de grupos iniciáticos de jovens que celebravam a dança armada, uma das formas da dokimasía grega. A dança desses demônios, e Zeus é cognominado “o maior dos Curetes”, é um conhecido rito da fertilidade. A maior e a mais significativa das experiências de Zeus foi ter sido amamentado pela cabra Amaltéia. 

A luta de Zeus e seus irmãos contra os Titãs, comandados por Crono, durou dez anos. Por fim, venceu o futuro grande deus olímpico e os Titãs foram expulsos do Céu e lançados no Tártaro. Para obter tão retumbante vitória, Zeus, a conselho de Geia, libertou do Tártaro os Ciclopes e os Hecatonquiros, que lá haviam sido lançados por Crono. 

Agradecidos, os Ciclopes deram a Zeus o raio e o trovão; a Hades ofereceram um capacete mágico, que tornava invisível a quem o usasse e a Posídon presentearam-no com o tridente, capaz de abalar a terra e o mar. 

Terminada a refrega, os três grandes deuses receberam por sorteio seus respectivos domínios: Zeus obteve o Céu; Posídon, o mar; Hades Plutão, o mundo subterrâneo ou Hades, ficando, porém, Zeus com a supremacia do Universo. Geia, todavia, ficou profundamente irritada contra os Olímpicos por lhe terem lançado os filhos, os Titãs, no Tártaro, e excitou contra os vencedores os terríveis Gigantes, nascidos do sangue de Urano, Vencidos os formidáveis Gigantes, Uma derradeira prova, a mais terrível de todas, aguardava a Zeus, a seus irmãos e aliados, Geia, num derradeiro esforço, uniu-se a Tártaro, e gerou o mais horrendo e terrível dos monstros, Tifão ou Tifeu. 

As lutas de Zeus contra os Titãs (titanomaquia), contra os Gigantes (Gigantomaquia), episódio, aliás, desconhecido por Homero e Hesíodo, mas abonado por Píndaro, e contra o horrendo Tifão, essas lutas, contra forças primordiais desmedidas, cegas e violentas, simbolizam também uma espécie de reorganização do Universo, cabendo a Zeus o papel de um “re-criador” do mundo. E apesar de jamais ter sido um deus criador, mas sim conquistador, o grande deus olímpico torna-se, com suas vitórias, o chefe inconteste dos deuses e dos homens, e o senhor absoluto do Universo. Seus inúmeros templos e santuários atestam seu caráter pan-helênico. O deus indo-europeu da luz, vencendo o Caos, as trevas, a violência e a irracionalidade, vai além de um deus do céu imenso, convertendo-se, na feliz expressão de Homero em (patér andrônite theônte), o Pai dos deuses e dos homens. E foi com este título que o novo senhor do Universo, tendo reunido os imortais nos píncaros do Olimpo, ordenou-lhes de não participarem dos combates que se travavam em Ílion entre aqueus e troianos. 

O teor do discurso é forte e duro, como convém a um deus consciente de seu poder e que fala a deuses insubordinados e recalcitrantes. 

Após ameaçá-los de espancamento, ou pior ainda, de lençá-los no Tártaro brumoso, conclui em tom desafiante: 

Suspendei até o céu uma corrente de ouro, e, em seguida, todos, deuses e deusas, pendurai-vos à outra extremidade: não podereis arrastar do céu à terra a Zeus, o senhor supremo, por mais que vos esforceis. Se eu, porém, de minha parte, desejasse puxar ao mesmo tempo a terra inteira e o mar, eu os traria, bem como a vós, para junto de mim. Depois, ataria a corrente a um pico do Olimpo, e tudo ficaria flutuando no ar. E assim sabereis até que ponto sou mais forte do que os deuses e os homens. 

O religiosíssimo Ésquilo, num fragmento de uma de suas muitas tragédias perdidas, vai além de Homero na proclamação da soberania de Zeus: Zeus é o éter, Zeus é a terra, Zeus é o céu. 

Sim Zeus é tudo quanto está acima de tudo. 

E era relamente assim que os gregos o compreendiam: um grande deus de quem dependiam o céu, a terra, a pólis, a família e até a mântica. 

Alguns outros de seus epítetos comprovam sua grandeza e soberania: Senhor dos fenômenos atmosféricos, dele depende a fertilidade do solo, dái seu epíteto de Khthónios; protetor do lar e símboo da abundância, ele é ktésios; defensor da pólis, da família e da lei, é invocado como polieús; deus também da purificação, denomina-se kathársios e deus ainda da mântica, em Dodona, no Epiro, onde seu oráculo funcionava à base do tartalhar dos ramos de um carvalho gigante, árvore que lhe era consagrada. 

É conveniente, no entanto, deixar claro que o triunfo de Zeus, embora patenteie a vitória da ordem sobre o Caos, como pensava Hesíodo, não reundou na eliminação pura e simples das divindades primordiais. Algumas deleas, se bem que desempenhando um papel secundário, permaneceram integradas no novo governo do mundo e cada uma, a seu modo, continuou a contribuir para a economia e a ordem do Universo. 

Até mesmo a manutenção de Zeus no poder, el a deve, em parte, à admoestação de Geia e Urano, qu elhe predisseram o nascimento de um filho que o destronaria. Foi necessário, para tanto, que engolisse sua primeira esposa, Métis. Nix, a Noite, uma das mais primordiais das divindades, continou a ser particularmente respeitada e o próprio Zeus evitava irritá-la. 

A ela zeus ficou devendo seus primeiros rudimentos de cosmologia, quando perguntou à deusa das trevas como firmar seu “soberbo império sobre os imortais” e como orbanizar o Cosmo, de modo a que “se tivesse um só todo com partes distintas”. As Erínias continuaram a desempenhar seu papel de vingadoras do sangue parental derramdado; Pontos, o mar infecundo, permaneceu rolando suas ondas em torno da Terra; Estige, que ajudou Zeus na luta contra os Titãs, foi transformada não apenas em rio do Hades, mas na “água sagrada” pela qual juravam os deuses; Hécate, a deusa dos sortilégios, teve seus privilégios ampliados por Zeus, e Oceano há de tornar-se uma divindade importante e um aliado incondicional de Zeus. Em síntese, o novo senhor, alijados os inimigos irrecuperáveis, ao menos temporariamente, buscou harmonizar o Cosmo, pondo um fim definitivo à violenta sucessão das dinastias divinas. 

Até mesmo as divindades pré-helênicas, através de um vasto sincretismo, tiveram funções e algumas muito importantes na nova ordem do mundo. O exemplo começou pelo próprio Zeus, que, apesar de ser um deus indo-europeu, “nasceu” em Creta; lá teve seus primeiros ritos iniciáticos e lá “morreu”. 

A marca minóica permaneceu inclusive na época clássica: a arte figurada nos mostra a estátua de um Zeus jovem e imberbe, o jovem deus dos mistérios do monte Ida, o feus da fertilidade, o Zeus ctônio. 

Atena, a importantíssima Atena, deusa da vegetação, transmutou-se na filha querida das meninges de Zeus. Perséfone tornou-se, além de filha da Grande Mãe Demeter, sua companheira inseparável nos Mistérios de Elêusis. Poder-se-ia ampliar a lista, mas o que se deseja ressaltar é que uma sábia política religiosa, em que certamente teve papel de relevência o dedo de Delfos com sua moderação e indiscutível patrilinhagem, fez que deusas locais pré-helências, algumas divindades primordiais e certos cultos arcaicos se integrassem no novo sistema religioso olímpico, dando à religião grega seu caráter específico e sua extensão pan-helênica sob a égide de Zeus. 

Tão logo o pai dos deuses e dos homens sentiu consolidados o seu poder e domínio sobre o Universo, libertou seu pai Crono da prisão subterrânea onde o trancariara e fê-lo rei da Ilha dos Bem-Aventurados, nos confins do Ocidente. Ale ele reiunou sobre muitos heróis que, mercê de Zeus, não conheceram a morte. 

Esse destino privilegiado é, de certa forma, uma escatologia: os heróis não morrem, mas passar a viver paradisiacamente na Ilha dos Bem-Aventurados. 

Trata-se de uma espécie de recuperação da Era de ouro, sob o reinado de Crono. 

Os Latinos compreenderam bem o sentido dessas aetas aurea (Era de Ouro), pois fizeram-na coincidir com o reino de Saturno na Itália. 

Zeus é, antes do mais, um deus da “fertilidade”, é úmbrios e hyétios, é chuvoso. É deus dos fenômenos atmosféricos, por isso que dele depnde a fecundidade da terra, enquanto khthómios. É o protetor da família e da Pólis, daí seu epíteto de polieús. Essa característica primeira de Zeus explica várias de suas ligações com deusas de estrutura ctônia, com Europa, Sêmele, Deméter e outras. Trata-se de uniões que refletem claramente hierogamias de um deus, senhor dos fenômenos celestes, com divindades telúricas. De outro lado, é necessário levar em conta que a significação profunda de “tantos casamentos e aventuras amorosas” obedece antes do mais a um critério religioso (a fertilização da terra porum deus celeste), e, depois, a um sentido político; unindo-se a certas deusas locais pré-helênicas, Zeus consuma a unificação e o sincretismo que hão de fazer da religião grega um calidoscópio de crenças, cujo chefe e guardião é o próprio Zeus. 

A maioria das regiões gregas se vangloriava de ter possuído um herói epônimo nascido dos amores do grende deus. O mesmo se diga das grandes famílias lendárias que sempre apontavam um seu ancestral como filho de Zeus. 

Mas, que representa, afinal esse deus tão importante para os gregos, dentro de um enfoque atual? Após o governo de Urano e Crono, Zeus simboliza o reino do espírito. Embora não seja um deus criador, ele é o organizador do mundo exterior e interior. Dele depende a regularidade das leis físicas, sociais e morais. 

Consoante Mircea Eliade, Zeus é o arquetipo, é o pai dos deuses e dos homens. Enquanto deus do relâmpago, configura o espírito, a inteligência iluminada, a intuição outorgada pelo divino, a fonte da verdade. Como deus do raio, simbolizou a cólera celeste, a punição, o castigo, a autoridade ultrajada, a fonte de justiça. 

A figura de Zeus, após ultrapassar a imagem de um deus olímpico autoritário e fecundador, sempre às voltas com amantes mortais e imortais, até tornar-se um deus único e universal, percorreu um longo caminho, iluminado pela crítica filosófica e pela evolução lenta, mas constante da purificação do sentimento religioso. 

A concepção de Zeus como Providência única só atingiu seu ápice com os Estóicos, entre os séculos IV e III a.e.c., quando então o filho de Crono surge como símbolo de um “deus único”, encarnando o Cosmo, concebido como um vasto organismo animado por uma força única. É indispensável, todavia, deixar bem patente que os Estóicos concebiam o mundo como um vasco organismo animado por uma força única e exclusiva, Deus, também denominado Fogo, Pneuma, Razão, Alma do Mundo… Mas, entre Deus e a matéria a diferença é meramente acidental, como de substância menos sutil a mais sutil. A evolução desse Teocosmo, desse deus-mundo, é necessariamente fatalista, pois que obedece a um rigoroso detrminismo. Desse modo, aos imprevistos do acaso e ao governo da Providência divina se substitui a mais absoluta fatalidade. 

As teorias cosmológicas dos Estóicos estão, na realidade, fundamentadas no panteísmo, fatalismo e materialismo. O belíssimo Hino a Zeus, do filósofo estóico Cleantes (Séc. III a.e.c.), marca o ponto culminante da ascensão do deus olímpico no espírito dos gregos de sua época e estampa bem claramente o que se acabou de dizer. 

Os “modernos”, todavia, denunciaram em determinadas atitudes do poderoso pai dos deuses e dos homens o que se convencionou chamar de Complexo de Zeus. Trata-se de uma tendência a monopolizar a autoridade e a destruir nos outros toda a promissora que seja. Descobrem-se nesses complexos as raízes de um manifesto sentimento de inferioridade intelectual e moral, com evidente necessidade de uma compensação social, sua dignidade de autoritarismo. o temo de que sua autocracia, sua dignidade e seus direitos não fossem devidamente acatados e respeitados tornaram Zeus extremament sensível e sujeito a explosões coléricas, não raro calculadas. 

Para Hesíodo, no entanto, Zeus simboliza o termo de um ciclo de trevas e o início de uma era de luz. Partindo do Caos, da desordem primordial, para a justiça, cifrada em Zeus, o poeta sonha com um mundo novo, onde haveriam de reinar a disciplina, a justiça e a paz. 

Tipo e atributos de Zeus

Tipo e atributos de Zeus 

Zeus (Júpiter), filho de Crono (Saturno) e de Reia, irmão de Posídon e Hades, esposo de Hera, rei dos deuses e dos homens, representa, na ordem moral o laço das sociedades humanas, o guarda dos tratados, o protetor dos pobres, dos suplicantes e de todos aqueles cujo único refúgio é o céu: 

“Vês tu, diz um fragmento de Eurípides, essa imensidão sublime que envolve a terra por toda parte? É Zeus, é o deus supremo.” Também Ênio afirma : “Olha essas alturas luminosas que por toda parte se invocam com o nome de Zeus.” Varrão, que cita tal trecho, acrescenta : “Eis porque são abertos os tetos dos templos, para deixarem ver o divino, isto é, o céu; dizem também que só devemos tomá-lo por testemunha a céu descoberto.” 

Com efeito, os templos de Zeus eram sempre descobertos no alto. Somente os templos dos deuses da terra é que têm tetos fechados. 

Sendo Zeus fisicamente a abóbada celeste personificada, julgavam todos não serem vistos por ele em lugares fechados. Aristófanes ri-se de tais crenças populares, quando, na sua comédia das Aves, mostra Prometeu, que, participando de uma conspiração contra o rei dos deuses, inventa um modo de não ser visto 

“Silêncio, diz ele, não pronuncies o meu nome; estou perdido, se Zeus me vê aqui. Mas se queres que eu te diga o que se passa lá no alto, pega este pára-sol e mantém-no sobre a minha cabeça, para que me não percebam os deuses.” 

Era difícil à arte representar sob forma humana o caráter de abóbada celeste de que se reveste, para falarmos corretamente, Zeus. Entretanto, uma antiga pedra gravada nos mostra o rei dos céus sentado num trono que descansa sobre um véu inflado pelo vento e seguro por Posídon posto embaixo. 

Sendo Posídon a personificação do mar, .é como se dissesse: o espírito de Deus paira sobre as águas. O céu que Zeus representa está aqui caracterizado pelos sinais do Zodíaco colocados em torno da composição, e Zeus, ademais, vê-se escoltado por duas divindades, Ares e Hermes. 

Embora, tomado isoladamente, Zeus represente mais especialmente a abóbada celeste, é, como já o dissemos, o deus supremo de que as demais divindades representam apenas qualidades personificadas. 

Creuzer, para patentear o caráter de universalidade de Zeus, apoia-se num hino órfico conservado por Estobeu: “Zeus foi o primeiro e o último, Zeus é a cabeça e o meio; dele provieram todas as coisas. Zeus foi homem e virgem imortal. Zeus é o fundamento da terra e dos céus; Zeus é o sopro que anima todos os seres; Zeus é a origem do fogo, a raiz do mar; Zeus é o sol e a lua. Está geralmente nu desde a cabeça até a cintura; os cabelos caem-lhe como crina nos dois lados da testa, que é clara e radiosa na parte superior, mas convexa na parte inferior. Tem os olhos fundos, apesar de bem abertos, uma barba espessa, peito amplo, mas não as proporções de atleta. A atitude é sempre majestosa e a arte jamais o representou em movimento violento. Zeus recebeu vários apelidos que correspondem a diferentes facetas do seu aspecto divino, e se caracterizam por atributos especiais.

Zeus tonante

Zeus tonante 

Não compreendiam os antigos que pudesse haver força comparável à do raio. O raio que Zeus empunha é, pois, a imagem da força repentina e irresistível. 

Todos os que tentaram lutar contra ele, homens ou deuses, foram fulminados. Assim, as moedas o representam montado num carro do alto do qual fere os que ousam resistir-lhe. Vemo-lo representado assim numa moeda da família Pórcia, cunhada em honra de uma vitória conquistada contra Antíoco por Cipião, o Asiático. 

Mas entre os monumentos do gênero, não há nenhum tão célebre como a bela pedra gravada do museu de Nápoles, onde o vemos fulminando os gigantes, e que reproduzimos. 

O culto de Zeus tonante imperava em toda a Grécia. Augusto ordenou que lhe erguessem um templo em Roma. Um raio caíra durante a noite sobre a sua liteira e um escravo morrera, sem que o imperador fosse atingido. Foi em memória de tal fato que se construiu no Capitólio um templo de Zeus tonante, cujos vestígios ainda existem e que está representado em várias medalhas. 

Virgílio, nas Geórgicas, descreve os terrores inspirados pelo raio de Zeus quando tomba no meio das tempestades. “Muitas vezes, diz ele, amontoam-se no céu torrentes de chuva, e, nos seus lados sombrios, as nuvens guardam espantosas tempestades. O céu funde-se em água e, sob um dilúvio de chuva, arrasta as risonhas colheitas e o fruto do trabalho dos bois. 

Os fossos enchem-se, os rios crescem ruidosamente, e nos estreitos o mar se agita e turbilhona. Zeus, no seio da noite das nuvens, lança o raio. A terra trepida até os fundamentos; os animais fogem e o espanto abala o débil coração dos mortais. O deus, com os seus dardos chamejantes, abate o Atos, o Rodope, ou os montes Acrocerâunios ; os ventos redobram, a chuva se intensifica, e o estrondo do furacão faz estremecer bosques e margens.” Quando Zeus é moço, e se prepara a lutar contra os Titãs, vemo-lo às vezes sob uma forma diferente da que lhe é dada, quando ê rei dos deuses. 

Assim é que uma bela pedra gravada antiga no-lo apresenta, contrariamente ao costume, nu e desprovido de barba. Acompanhado da sua águia, prepara-se para a grande luta que lhe vai assegurar o império do mundo. 

Zeus nicéforo 

Nice, a Vitória, aparece uma vez ou outra na mão de Ares ou de Atena, mas quase sempre na de Zeus. É um atributo que não pode estar melhor colocado do que na companhia do rei dos deuses. 

A Vitória não tem nenhuma lenda especial na mitologia, mas surge freqüentemente na arte. Colocada em moedas, parece ter por missão perpetuar a recordação de um fato glorioso para o país. Numa medalha parta, vemos uma imagem de Zeus nicéforo, no reverso do retrato do rei, cujo exército vencera Crasso. 

A Vitória está sempre caracterizada por asas, sem dúvida para indicar o seu caráter fugidio. Entretanto, os atenienses ergueram um templo à Vitória sem asas, querendo, assim, demonstrar que se fixara entre eles. Em Roma, havia no Capitólio uma célebre estátua da Vitória arrebatada várias vezes na luta do cristianismo e do paganismo e que acabou por desaparecer definitivamente em 382, por ordem de Graciano que, com tal medida, se tornou odioso aos romanos e se viu abandonado dos súditos, mal se soube que Máximo se fizera proclamar imperador na Grã-Bretanha. Os pagãos eram ainda numerosíssimos em Roma, e é fácil compreender a indignação deles, ao verem retirar a Vitória, no mesmo momento em que os bárbaros invadiam por todas as partes o império. A Vitória segura quase sempre na mão uma palma ou coroa de louro; vemo-la muitas vezes coroando um herói ou pairando no ar sobre ele. Às vezes, eleva os troféus, ou grava num escudo os feitos dos guerreiros. As pedras gravadas a representam também conduzindo um carro. 

A arte dos últimos séculos não modificou sensivelmente o tipo deixado pela antiguidade, e, em vários dos nossos monumentos, vemos a Vitória sob a forma de jovens aladas, que seguram coroas ou palmas. 

Zeus aetóforo 

A águia, segundo os gregos, é a ave que voa mais alto e, por conseguinte, a que melhor corresponde à majestade divina. É por isso que se representa umas vezes aos pés de Zeus, outras sobre o seu cetro. 

Às vezes, segura com as poderosas garras o raio do deus: vemo-lo sob esse aspecto no reverso de uma moeda macedônia. 

A águia de Zeus, aliás, desempenhou um papel importante na mitologia. É ela que leva a Zeus criança o néctar de que as ninfas a embebem na ilha de Creta. 

Mas é sobretudo ela que arrebata o jovem pastor Ganimedes para dele fazer escanção do rei dos deuses. 

O belo adolescente era filho de Tros, rei de Tróada; segundo Homero, Zeus ordenou que o raptassem para dar aos céus um ornamento de que a terra não era digna. Uma linda estátua antiga nos mostra o pastor 

Ganímedes inteiramente nu e apoiado contra uma árvore. Usa o gorro frígio e segura com a mão o seu cajado de pastor. Ganímedes guiava os seus rebanhos no promontório dardânico, quando se verificou o rapto sobre o qual não dão os poetas nenhum pormenor. 

Mas quando o rapto se verificou. o rei de Tróada ficou inconsolável com a perda do filho: Zeus aliviou-lhe a dor mostrando-lhe que endeusara Ganímedes e o colocara no céu, onde se tornou efetivamente o sinal do Zodíaco a que chamamos aquário. Ademais, o rei dos deuses doou a Tros um magnífico cepo de ouro e uma parelha de cavalos que corriam mais depressa que o vento.

O rapto de Ganímedes constitui o assunto de uma bela estátua antiga do museu Pio-Clementino ; considera-se repetição de um grupo esculpido por Leocares, famosíssimo na antiguidade. 

A estátua de Leocares é citada na obra de Plínio, e acredita-se que foi ela que Nero mandou buscar para ornamento do templo da Paz. É de notar o cuidado da águia para não ferir de maneira nenhuma o jovem que foi incumbida de raptar ; às vezes, Ganímedes é representado sentado nas costas da águia. 

De resto, narra Luciano pormenorizadamente as circunstâncias do rapto; é Hermes quem fala: 

“Prestava eu, diz ele, os meus ofícios a Zeus que, disfarçado de águia, se aproximou de Ganímedes e pairou por algum tempo atrás dele. Depois, aplicando docemente as garras aos membros delicados do rapaz, e pegando com o bico o seu gorro, raptou o belo jovem que, surpreendido e perturbado, voltava a cabeça e os olhos para o raptor.” 

Uma medalha de Geta, cunhada na cidade de Dárdanos em Tróada, e várias pedras gravadas representam o fato de maneira aproximadamente conforme à narração de Luciano. Numa antiga pintura do museu de Nápoles, é um Amor quem conduz a águia para perto de Ganímedes sentado ao pé de uma árvore. Um grande número de pedras gravadas O rapto de Ganímedes constitui o assunto de uma bela estátua antiga do museu Pio-Clementino ; considera-se repetição de um grupo esculpido por Leocares, famosíssimo na antiguidade. 

Numa pedra gravada do museu de Florença, vê-se Afrodite acariciando Ganímedes a quem explica, sem dúvida, as funções que lhe hão de caber: um vaso posto ao pé do belo adolescente indica a natureza. Em lugar do gorro frígio, Ganímedes usa dessa vez casquete de caçador, e Zeus, que deseja contemplá-lo à vontade, sem que ele o perceba, está quase inteiramente oculto pela águia de asas abertas. 

Não conhecemos monumentos célebres que representem Ganímedes nas suas funções de escanção ao pé do rei dos deuses. Mas uma linda estátua do museu Pio-Clementino no-lo apresenta segurando na mão uma taça de ambrósia que ele apresenta à águia de Zeus, posta ao seu lado. 

Zeus hospitaleiro 

Zeus é o protetor dos anfitriões, e percorre incessantemente a terra para verificar como praticam a hospitalidade os homens. Achava-se um dia na Frigia, acompanhado do fiel Hermes, que tivera o cuidado de se desfazer das asas para não ser reconhecido. Após visitar grande número de casas em busca de hospitalidade, o que sempre lhe foi recusado, chegou a uma choçazinha coberta de palha, e de caniços; ali foram ambos acolhidos com cordialidade por Filemon e Báucis. Os dois esposos tinham a mesma idade, haviam contraído núpcias muito moços e haviam envelhecido naquela choça. Pobres, tinham sabido mediante a virtude diminuir os rigores da indigência. Sozinhos, eram eles mesmos os seus criados e compunham toda a família. 

Quando Zeus e Hermes entraram, abaixando-se, por ser a porta baixíssima, Filemon apresentou-lhes cadeiras para que descansassem, e Báucis nelas acomodou um pouco de palha para que os estranhos se sentissem mais a vontade. Em seguida, pôs-se a fazer fogo reavivando algumas fagulhas que brilhavam sob as cinzas; para aumentá-lo e fazer ferver a marmita, reuniu alguns gravetos e arrancou ramos que serviam de apoio à cabana. Enquanto limpava a verdura que o marido fora colher no horto, Filemon pegou toucinho velho pendente cio forro e, cortando um pedaço, o colocou na marmita. Depois, à espera de que o almoço ficasse pronto, começou a conversar com os hóspedes para que estes se não entediassem. 

Num canto do quarto pendia um vaso de faia que Filemon encheu de água quente, para lavar-lhes os pés. 

No meio, via-se uma mesa de madeira cujo único enfeite eram algumas folhas de árvores; para decorá-la, estenderam sobre ela um tapete do qual somente se serviam nas grandes festas, e o tapete, digno ornamento de tal mesa, era um velho hábito muito comum: foi ali que eles arrumaram o lugar para que Zeus e Hermes pudessem comer. 

Entretanto, Báucis preparava a mesa; como esta tivesse um dos pés mais curto que os outros, remediou a situação colocando sob ele um tijolo. Após enxugá-la bem, colocou sobre ela azeitonas, chicórea, rabanetes e queijo branco. Formava o prato do meio um bolo de mel. A refeição era frugal, mas tinha bom aspecto e era dada de todo o coração. No entanto, o bom casal desconfiou que não era bastante; a sua única riqueza era um ganso que guardava a choça. Quiseram pegá-lo para o matar, e puseram-se ambos a correr atrás do pobre animal que, desejoso de lhes escapar, os fez perder a respiração e terminou por se refugiar entre as pernas de Zeus, o qual lhes rogou o não matassem. O ganso passara a ser seu protegido. 

Os dois esposos notaram que as taças se enchiam por si próprias à medida que se esvaziavam e que o vinho aumentava em vez de diminuir. Assombrados com tal prodígio, ergueram as mãos trêmulas para o céu, pedindo perdão aos hóspedes por lhes ter oferecido tão pobre refeição Zeus deu-se, então, a conhecer e ordenou-lhes o seguissem à montanha vizinha, o que eles mal conseguiram fazer, valendo-se dos seus cajados. O rei dos deuses perguntou-lhes, depois, o que almejavam, e prometeu que os satisfaria. Após se consultarem, os dois esposos suplicaram-lhe a graça de não sobreviver um ao outro. 

Chegados à montanha, Filemon e Báucis voltaram-se e viram que toda a região estava coberta de água, com exceção da choça. E como se admirassem de, no meio de tão grande calamidade, lhes ter sido poupada a habitação, notaram que se revestia de aspecto diverso. Magníficas colunas se erguiam no lugar das forquilhas de madeira que antes a sustentavam; a palha que a cobria convertera-se em ouro; a terra que lhe servia de soalho estava pavimentada de mármore, a porta ornada de esculturas e baixos-relevos; a humilde choupana transformara-se num resplendente templo. 

Zeus fez dos dois esposos sacerdotes do novo templo, e eles viveram unidos na prosperidade, como haviam vivido na indigência, e chegaram isentos de enfermidades à mais extrema velhice. Quando soou a hora marcada pelo destino, Filemon e Báucis achavam-se sentados diante dos degraus do templo. Báucis percebeu de repente que o corpo de Filenon se ia cobrindo de folhas e este, por sua vez observou o mesmo fenômeno em sua mulher. 

Vendo, em seguida, ambos que a casca começava a atingir a cabeça, disse Filemon: “Adeus, minha querida esposa”, e ela: “Adeus meu querido esposo”. Mal haviam proferido tais palavras, fechou-se-lhes para sempre a boca. As duas árvores colocadas lado a lado sombrearam a entrada do templo, e a piedade dos povos lhes cobriu de ramalhetes e grinaldas os ramos. 

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Michel Belli

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