Seus 21 mil genes – mais ou menos o mesmo que nós temos – as ajudam a regenerar membros, combater infecções e digerir qualquer coisa. Até inseticida.

O que o ser humano e a barata têm em comum? Bem, os dois estão entre as pouquíssimas criaturas na Terra que tiveram o privilegio de ter o genoma sequenciado. Pesquisadores chineses publicaram ontem na Nature um artigo científico com a primeira descrição completa do DNA da Periplaneta americana– uma das baratas domésticas mais comuns do mundo, famosa pelo tamanho considerável e por gostar de lugares como o ralo do seu banheiro.



Não parece, mas esse é um conhecimento muito útil. Fica mais fácil combater seu inimigo se você souber tudo que há para saber sobre ele – e o código genético é o manual de instruções de todos os organismos vivos. Baratas são um problema de saúde pública global. Comem qualquer coisa sem dor de estômago, e prosperam em grandes cidades mesmo apesar do exército de chinelos e inseticidas que as persegue.

Vamos aos fatos: elas têm 21,336 genes, mais ou menos o mesmo que o ser humano, e um número bem maior que o dos demais insetos. 84% deles são iguais aos da outra espécie de barata doméstica – a germânica, menorzinha e tão comum quanto –, e 82% são compartilhados com os cupins. Nessa sopa de letrinhas (ou melhor, de bases nitrogenadas), a equipe comandada pelo biólogo Sheng Li encontrou genes que ajudam a explicar a resiliência desses animais.

Não há nada que garanta a sobrevivência em caso de guerra nuclear, mas o DNA da P. americana de fato produz proteínas que reforçam o sistema imunológico, que melhoram o olfato e que combatem substâncias tóxicas com mais eficiência que o normal. Não há nada que uns bons séculos de seleção natural no esgoto não possam fazer. Além disso, há um grande número de genes dedicados a metabolizar comida de todos os tipos – incluindo alguns tipos de inseticida. E o mais bacana: as baratas têm genes dedicados à regeneração rápida de membros perdidos. Coisa que o ser humano nem sonha em fazer.

É sempre bom lembrar que, quando se diz no jornalismo que um gene faz alguma coisa, essa é uma simplificação muito grande. Genes são trechos de DNA que produzem uma única proteína. E proteínas são moléculas com uma única função – como acelerar uma reação que é necessária para o metabolismo, mas que ocorreria muito lentamente sem essa ajudinha. Proteínas desencadeiam longas sequências de eventos bioquímicos, e a maneira como elas, em última instância, são capazes de comandar fenômenos como a formação de um bebê na barriga da mãe ainda é um mistério. Sabemos o básico desse processo, mas não as minúcias.

Os genes mencionados acima, portanto, produzem proteínas que, ao interagirem com muitas outras moléculas, dão certas vantagens às baratas no inóspito ambiente urbano. Mas esses genes não são, sozinhos, capazes de gerar um determinado comportamento ou a característica anatômica.

Ressalvas a parte, o sequenciamento ainda é uma notícia legal: saber cada letra do DNA é o primeiro passo. Com essa arma em mãos, podemos descobrir jeitos melhores de matar baratas – além de, ironicamente, aprender coisas sobre elas que poderão ser úteis para a medicina um dia.

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Karina Faris

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