O historiador de 420 a.C. foi um pioneiro do caô: afirmou que pássaros "escovam" os dentes de crocodilos do Nilo – coisa que biólogo nenhum jamais observou

Para alguém que morreu há 2458 anos, até que Heródoto é bom em me perseguir. Tudo começou na faculdade, em uma daquelas aulas que a gente é obrigado a pegar em outros departamentos para preencher toda a grade horária — as temidas optativas. Visitei o departamento de Letras, me enfiei em um curso chamado “Historiografia Grega” e descobri que o título pomposo era um eufemismo para “passar o dia lendo causos engraçados e dramáticos do Heródoto sobre as guerras sanguinárias entre gregos e persas”.


Não reclamei: era sensacional. Valeu, André Malta, você foi um professor incrível. Foi lá que eu descobri que o filme 300 — que está no páreo com Lost para o Oscar de atuação mais constrangedora de Rodrigo Santoro — foi inspirado na descrição da Batalha das Termópilas feita pelo historiador grego. De fato, não qualquer historiador: o primeiro historiador. E geógrafo. E antropólogo. E etnógrafo. E jornalista. Heródoto, em seus nove livros, inventou metade dos cursos de humanas. Viajou todo o mundo conhecido relatando o que via. E me rendeu uma matéria muito legal.

Ele era até biólogo. E é aí que ele aparece de novo na minha vida. É no livro 2 de sua obra — conhecida simplesmente como Histórias — que Heródoto dá um rolê no Egito dos faraós e supostamente se depara com uma cena que hoje seria viralizada no Facebook como o vídeo mais fofinho da semana: pássaros da espécie Pluvianus aegyptius escovando os dentes de um crocodilo com o bico. Sim, é isso aí que você imaginou: o crocodilo lá, de boca aberta, e os passarinhos dentro da boca, transformando em aperitivo as porcarias presas nos vãos dos dentes afiados. De boa. Ninguém é mastigado no processo.

Veja com seus próprios olhos: “Como ele vive na água, sua boca é cheia de sanguessugas. Todos os pássaros e bestas fogem dele, exceto um, que com ele fica em paz pois esse pássaro presta ao crocodilo um serviço; toda vez que o crocodilo vem às margens e abre a boca, o pássaro entra em sua boca e come os sanguessugas; o crocodilo fica satisfeito com o serviço e não fere o pássaro” . Eu fiz uma tradução livre de uma edição em inglês, mas há várias versões em todas as línguas e algumas não mencionam explicitamente sanguessugas. Para um post de blog, isso vai bastar.

Parece difícil de acreditar. Tudo bem, talvez não na era virtual — em que as pessoas assistem a vídeos de capivaras brincando com gatinhos e acham que os bichos nascem bons, a sociedade que os corrompe. Mas na cabeça da média, Darwin descreveu uma natureza bruta e egoísta, em que o um crocodilo que engole brutalmente passarinhos em vez de usá-los de dentista se dá melhor na seleção natural.

Ao mesmo tempo, já se sabe há décadas que uma espécie de altruísmo com segundas intenções pode emergir espontaneamente entre seres vivos. Por exemplo: ajudamos nossos parentes porque eles têm uma boa parcela do DNA idêntico ao nosso, e isso é uma questão lógico-matemática. Se você salva a pele de seus filhos ou irmãos, na prática está salvando seus próprios genes. Também há trocas de favores entre membros da mesma espécie — como os morcegos que doam sangue para outros morcegos não aparentados, na esperança de que eles retribuam o favor no futuro, quando a caçada de pescoços não for boa.

Se a troca de favores é boa para as duas partes — passarinhos almoçam, crocodilos ficam com os dentes limpos — não há porque duvidar que ela possa se tornar uma estratégia viável do ponto de vista evolutivo. Em outras palavras, que crocodilos que não trucidam pássaros e pássaros que não têm medo de crocodilos sejam selecionados entre seus parentes comilões e covardes, respectivamente. Era uma história tão boa que eu e os editores batemos o martelo: ela precisava entrar em uma reportagem sobre seleção natural que sairá na SUPER de junho (não vou dar spoilers).

Só que aí eu fui procurar vídeos da cena, e eles não existiam: a definição do único que eu encontrei era tão baixa que não transmitia confiança. Cada passarinho era um pixel. Fotos também não, só montagens bem ruins. Relatos na literatura científica? Zero. De fato, a história dos Charadriinae era quase como um conto infantil, que passou de boca em boca nas aulas de biologia do ensino fundamental, desde a Grécia Antiga até hoje.

Um corajoso, porém, resolveu tirar a história a limpo: Adam Britton, zoólogo e especialista em crocodilos, dá bons argumentos contra a lenda: crocodilos trocam de dentes com uma frequência muito alta para dar tempo de ficarem sujos, e o espaço entre os dentes é grande demais para qualquer resto de comida ficar preso: a própria água corrente é suficiente para escová-los. Além, claro, do fato de que se essa história fosse verdade, a National Geographic já teria ido lá filmar. Outro especialista que desmente a história é Thomas Howell, autor de um livro todinho sobre o pássaro do Nilo a que o comportamento é atribuído.

“Ah, mas eu já vi um vídeo disso.” Sim, eu também. Ele saiu do comercial de chiclete gringo abaixo. Computação gráfica ruim, só isso. A história de simbiose mais simpática da natureza na verdade é a primeira fake news. Cuidado para não cair.
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Karina Faris

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