Não é paranoia. E a culpa pode ser das discussões que seus pais travavam na sua frente.

Encarar uma expressão neutra é complicado para muita gente. Sorrisinhos falsos, conversas fáticas, faz-se de tudo para evitar um ambiente “sóbrio” demais. Isso porque geralmente encaramos a neutralidade como algo negativo. Há quem considere o caso semelhante à experiência “copo meio cheio ou meio vazio”, mas com expressões humanas. No entanto, um novo estudo da Universidade de Vermont, nos EUA, mostrou que enxergar expressões neutras como bravas vai muito além das convenções sociais ou pessimismo. A raiz está lá atrás, na infância.


De acordo com a pesquisa, crianças que vivem em um ambiente em que os pais brigam muito têm dificuldade de ler expressões faciais que estão no “meio termo”. Elas passam muito tempo procurando sinais de conflito, para poderem se defender. A psicóloga autora do estudo, Alice Schermerhorn, afirmou que, por comparação, expressões neutras não oferecem muita informação, então as crianças não conseguem reconhecer — e as interpretam da forma mais segura para elas: “Expressões de raiva podem ser um sinal para elas irem para o quarto”.

A pesquisa usou para teste 99 crianças, de 9 a 11 anos, que moram com seus pais biológicos. Primeiro elas responderam a um questionário com perguntas como “seus pais ficam muito bravos quando discutem?”. Depois, foi analisada a habilidade delas em perceber emoções numa série de fotos. Inicialmente, a pesquisadora achava que crianças que presenciaram conflitos teriam mais dificuldade em discernir o que eram expressões neutras, felizes ou bravas. Mas descobriram que não: tanto crianças com pais que discutiam como aquelas que viviam em ambientes harmoniosos conseguiam diferenciar com a mesma precisão expressões de felicidade e de raiva — o que confundia as crianças com trauma eram justamente as expressões neutras.

Essas descobertas sugerem que mesmo casos menos severos que maus-tratos e negligência exercem influência no processamento das emoções, principalmente em crianças tímidas. Estudos anteriores já indicavam que depressão, ansiedade e irritabilidade afetam a maneira como uma pessoa percebe as expressões das outras. Mas esse estudo mostra que adultos que foram expostos a violência na infância são mais suscetíveis a ver hostilidade onde não há.

No final, a pesquisa constatou que quem mais precisa de uma expressão alegre tem dificuldade de reconhecer uma. Só porque algo não é expressamente positivo não significa que seja negativo. É sempre bom pensar que tudo é uma questão de sobrancelha – como o emoji na capa desta reportagem mostra.




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Karina Faris

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